Pais de pets e a discriminação do termo

Um dia, assistindo a um vídeo de um pastor no YouTube, percebi que ele estava indo muito bem. Falava sobre como muitos homens hoje parecem estar sem testosterona e abandonando aquilo que tradicionalmente se entende como as funções do “homem da casa”: o homem protetor, provedor e responsável por sua família.

Até aí, tudo bem.

Eu assistia e absorvia o conteúdo, pois concordo que a masculinidade anda em baixa no mundo atual. Durante décadas, a esquerda fez um ótimo trabalho de descaracterização da figura masculina, tratando muitas vezes como “tóxico” aquilo que, na realidade, é responsabilidade, coragem, firmeza e proteção.

Mas o pastor resolveu puxar o assunto para o lado dos chamados “pais de pets”.

Nesse momento, fiquei à espera da bomba. E, de fato, a bomba veio.

Ele simplesmente condenou os pais de pets, como se amar e cuidar de um animal fosse algo capaz de desmerecer um homem ou diminuir sua masculinidade. Ouvi aquilo e engoli a seco tamanha baboseira.

Eu sou pai de pets. Por sinal, tenho seis. Sim, seis — e todos foram resgatados das ruas.

Sou contrário à compra de animais quando ela é motivada apenas pelo desejo de ostentar determinada raça ou de fazer pet virar brinquedo de criança: “ah, meu filhinho quer um pet para brincar!”… Um pet não é brinquedo para criança mimada. É uma vida que exige cuidado, responsabilidade, paciência, proteção e amor.

Para mim, um pet também conserva algo que nós, seres humanos, infelizmente perdemos com o tempo: a inocência. Eles dependem de nós, confiam em nós e diferentes de nós, nascem e morrem seres puros e inocentes.

Mas, voltando ao assunto…

Não é apenas esse pastor que desmerece pais e mães de pets. Dentro do chamado conservadorismo, existe uma corrente de pessoas amargas e pouco sensíveis que trata quem chama um animal de filho como se fosse inferior, imaturo ou incapaz de compreender o que é uma verdadeira família.

Só que essas pessoas se esquecem de algo muito importante: nem todo casal e nem todo indivíduo consegue ter filhos.

Diante disso, sempre aparece alguém disposto a dizer:

“Então adote uma criança.”

É muito fácil dizer o que outra pessoa deveria fazer da própria vida. Difícil é conhecer sua história, suas dores, seus limites e as razões pelas quais tomou determinadas decisões.

Eu ainda não tive a oportunidade de ser pai por diversos motivos. Também sei que existem milhares de bons homens e boas mulheres que não puderam ser pais ou mães, embora desejassem isso.

Adotar uma criança é uma decisão séria, profunda e cercada por responsabilidades. Além de ser um processo burocrático no Brasil, nem todas as pessoas se sentem emocionalmente preparadas para assumir uma história que começou antes da chegada daquela criança à sua vida. Isso não deve ser condenado. Deve ser respeitado.

Quando alguém julga os pais de pets pelo simples fato de tratarem seus animais como membros da família, desconsidera a solidão de muitas pessoas, ignora diferentes trajetórias de vida e despreza o bem que está sendo feito aos milhares de animais que poderiam estar abandonados, passando fome ou sofrendo pelas ruas.

Esses animais encontraram um lar. Em troca, oferecem amor, lealdade, companhia e uma presença que muitas vezes transforma completamente a vida de seus tutores — ou de seus pais, como muitos preferem dizer.

Eu considero, sim, que um animal de estimação pode ser uma espécie de filho.

Ele merece ser tratado com amor, respeito e responsabilidade. É claro que um pet não se compara integralmente a um filho humano. São vínculos diferentes, com responsabilidades e realidades diferentes.

Mas ninguém tem o direito de desmerecer o amor que uma pessoa sente por seu animal, como se fosse um amor falso, inferior ou ridículo.

Até porque existem famílias humanas nas quais sequer há amor, cuidado ou respeito. Portanto, possuir filhos não transforma automaticamente ninguém em uma pessoa amorosa, responsável ou moralmente superior.

Este texto é, acima de tudo, um desabafo em defesa dos pais e mães de pets.

Na minha humilde opinião de escritor, somos, sim, pais e mães de pets. Não somos menos homens nem menos mulheres por causa disso. Pelo contrário: acolher uma vida vulnerável, protegê-la, alimentá-la e assumir responsabilidade por ela não diminui ninguém.

Isso demonstra cuidado, compromisso e humanidade.

O amor que sentimos por nossos animais e a intensidade desse vínculo dizem respeito a nós mesmos e a mais ninguém.

E aquele pastor, antes de tentar medir a masculinidade dos outros pela forma como tratam seus animais, deveria olhar um pouco mais para o verdadeiro significado da compaixão.

Ou, quem sabe, ir lavar uma louça.

Meu abraço forte e reconfortante,

HC de Souza

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